O Desfile de Páscoa, de Richard Yates

“Nenhuma das irmãs Grimes teria uma vida feliz e, olhando em retrospecto, sempre pareceu que o problema começou com o divórcio dos pais.”

Assim começa o romance de Yates que fez eu me prostrar e chorar copiosamente. Sarah e Emily são irmãs bem diferentes em personalidades. A mais velha é morena e tem uma visão tradicional do papel da mulher. Emily é loira e ao longo da vida faz abdicações que a tornam ‘uma mulher moderna’. As meninas, depois do divórcio, passam a viver com mãe: uma mulher instável, que almeja uma vida de requinte, e por conta disso, vive se mudando em busca de uma casa que as faça aparentar para a sociedade um nível de vida sofisticado. Já o pai, é um homem que trabalha em um pequeno jornal como copidesque, frustrado pelo cargo e falha como pai de família.

As meninas vão crescendo ao longo do romance e acompanhamos suas escolhas sempre acompanhadas de renúncias. Sarah opta por casar cedo com um lindo rapaz, e viver em um ambiente campestre longe de oportunidades. Sua beleza aumenta a cada dia, e Emily vê nela a esposa feliz e realizada. Emmy ganha uma bolsa e vai para Universidade. Se relaciona com vários rapazes e nesse ponto é muito interessante acompanhar. Ela se envolve com vários tipos masculinos, e é meio cômico como os enlaces terminam. Suas escolhas acadêmicas e estilo de vida a afastam da família. Acho que não foram apenas situações externas que a fazem se afastar; Emmy com seu diploma superior passa a considerar sua irmã e mãe toscas. Exasperam-na as conversas em família sobre quando ela irá casar, ter filhos. Desse modo, cada uma seguiu um caminho diferente em busca da felicidade negada pela infância conturbada.

O romance é dividido em três partes, e transcorre ao longe de quarenta e dois anos. Emmy é a protagonistas e sabe-se o que acontece aos outros personagens a partir das informações que chegam a ela. A partir da segunda parte segredos começam a ser revelados e lemos o quanto Emmy foi poupada por ser a caçula da família.

A minha comoção surgiu a partir da personagem Sarah. Uma moça que cedo abdicou da vida própria, em busca de uma família sólida, por não ter tido isso na infância. Entrega-se totalmente ao marido, e constantemente ao longo do romance, a vemos querendo agradá-lo, seja com atitudes ou com palavras. Tornar-se mãe de três filhos que sugam mais e mais sua vitalidade.  O narrador com o passar dos anos, vai destituindo Sarah de suas qualidades físicas e descreve sua degradação e transformação em uma senhora tosca. Mas não é sua beleza se esvaindo que me comoveu, e sim os sonhos frustados que Sarah abafa. Ela vê a irmã como senhora de si, realizando trabalhos bacanas, viajando o mundo, tendo relacionamentos com homens interessantes. Por alguns momentos, Sarah quer dar um pouco de dinamicidade fora do âmbito familiar. Ela começa a escrever um livro sobre um herói dos EUA, depois se envolve com a rádio local… Mas tudo vai sendo deixado de lado, ora por que o marido não quer, ora por que ela se impõe essa penitência para continuar com a família em primeiro lugar. Há uma outra situação que é revelada que embasa mais a ideia de Sarah como submissa. O mais triste é ver essa mulher cativa de uma situação que ela nunca quis para si, mas que não consegue de desvelar por conta da sociedade e, ainda mais, por escolha própria.

Yates é magistral. Ele constrói os dramas femininos com uma realidade e sensibilidade que não as tornam neuróticas ou caricaturais. Eu por muitas vezes me enxerguei na Emmy; assim como muitas vezes vi na relação entre as irmãs, a minha com minha irmã. A evolução da beleza feminina em seu auge, quando Emmy desfruta de aventuras amorosas; e como sua vida vai degringolando quando a beleza vai se esvaindo. É sublime.

A leitura do livro pós episódio do estupro coletivo da adolescente no Rio de Janeiro, foi forte. A violência contra mulher é uma companheira presente na vida de todas nós. Violência que pode vir na forma física como psicológica. Violência que sempre aparecerá em qualquer escolha que nós fizermos: mãe de família ou mulher solteira. Violência que podemos escapar ilesa na juventude, por termos vitalidade e jogo de cintura; mas que pode surgir quando estamos velhas, sem amparo. Ser mulher é uma grande roleta russa. Sempre atentas e em estado de defesa.

 

 

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Agosto, de Rubem Fonseca

Começo o texto confessando uma dislexia que descobri junto à literatura. Não consigo acertar logo na primeira tentativa o nome do autor dessa obra, visto que troco o sobrenome por de outro Rubem escritor. Na realidade, conheço três Rubens: o Braga, o Fonseca e o Alves. Troco todos! Nunca sei quem é quem. Criei um método: Braga é cronista, Alves é educador e o Fonseca é o criador do advogado Mandrake.

Agosto foi um livro que planejei ler em agosto, porém falhei. Li com tanta voracidade o livro de mais de 300 páginas, que surpreendi-me, visto que há tempos não acontecia esse entusiasmo.

O romance abordará as investigações de Mattos que é um investigador incorruptível. Ele sofre de gastrite crônica e precisa a todo momento beber leite e tomar suas pílulas para aguentar o desconforto. Ele é o último suspiro em um sistema falho e manipulado pelos políticos corruptos e traficantes. Ao investigar o assassinato de um rico empresário, ele se vê envolvido em uma conspiração política.

Em paralelo as ações de Mattos para desvendar o crime, Getúlio Vargas é mais e mais sufocado pela câmara e mídia, que culminará no que já sabemos.

Interessante no livro é que ao mesmo tempo que somos seduzidos pela investigação do assassinato do empresário, recebemos uma aula de história. Fica-se conhecidos os atentados a Carlos Lacerda, as manobras políticas para destituir Vargas e que Café Filho assumisse.

As história vai caminhando, o suspense vai aumentando e a úlcera gástrica de Mattos vai doendo mais e mais, gerando uma expectativa sobre como tudo terminará.

Prostituição, homossexualidade, crimes passionais, corrução serão elementos que serão personagens coadjuvantes nessa grande obra de suspense da literatura brasileira.

Dois irmãos, de Milton Hatoum

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Amazonense, Milton era uma daquelas pendências literárias que me martirizavam.

Dois irmãos é um Esaú e Jacó versão libanesa e contemporânea. O narrador é Nael, filho da empregada Domingas. Ele é olhos e ouvidos da casa, e depois de trinta anos, resolve rememorar a história trágica daquela família onde trabalhou desde menino.

 Yacub e Omar são gêmeos univitelinos. Desde cedo houve um tratamento diferenciado da mãe, Zana, com o mais velho, Omar. Os meninos são completamente diferentes em personalidade. Omar vem a ser um ser humano impiedoso, violento, não há compaixão em seu coração, e é destituído de caráter. Yacub é tímido, considerado mais belo que o irmão, possui uma preocupação com a família, e é muito inteligente.

Em um episódio da infância, os meninos se apaixonam pela mesma menina, Lívia. A menina dá um beijo na face de Yacub, ao ver o episódio, Omar se enche de cólera e rasga a face do irmão com um pedaço de vidro. O ódio entre os dois irmãos é tão grande, que Halim, pai dos meninos, manda Yacub para o Líbano afim que sare as feridas sentimentais e entre em contato com suas raízes.

Passam-se cinco anos, e a Yacub volta. Ele agora é um adolescente taciturno, que sabe poucas palavras em português. Os irmãos não se reconciliam, e o Yacub passar a ser sempre  alvo de zombarias do irmão. Contudo, mantendo-se focado nos estudos, consegue honras no colégio, em detrimento de Omar, que é expulso da instituição por mau comportamento.

Yacub decide ir para São Paulo para cursar uma faculdade, mas principalmente, para ficar longe da família. Sua mãe e sua irmã caçula, Rânia, idolatram Omar, e sempre passam a mão em suas vadiagens, o que exaspera Halim, que com o tempo irá nutrir uma aversão tremenda ao filho inconsequente.

Ao longo do romance, Nael irá nos relatar confissões das personagens que nortearam o compreendimento do leitor a cerca das relações familiares. Ele desconhece sua paternidade, e nessa atividade de ouvir os demais, anseia por um dia escutar quem daqueles três homens da casa – Halim, Omar e Yacub – é seu pai.

Yacub, em São Paulo, torna-se um grande engenheiro, à medida que sua família se deteriora mais e mais. Omar sempre metendo-se em confusões, sua mãe adulando-o, Halim exasperando-se com as atitudes da mulher e Rândia, modelo da modernidade, toma o lugar do pai na loja, deixando o velho homem sem sua profissão de vender quinquilharias.

O romance do Milton Hatoum é um conflito de identidades e egos. Em Manaus, nós temos a família de Halim e Zana, típicos libaneses que possuem uma empregada indígena, quase uma escrava, que é Domingas. Nael, miscigenação das duas etnias procura saber quem é seu pai, não para conseguir dinheiro, mas para encontrar seu lugar e entender sua identidade.

É um belíssimo romance. O estilo do escrito é muito bom, e por várias vezes senti raiva de Zena, sentia-me aflita por não entender bem o que o silêncio de Yacub representava e me apiedava de Halim, um homem que sofreu para conquistar a mulher que amava, que vivia de amores por ela, mas que era uma fraca na educação de Omar.

Leia!

O homem que confundiu sua mulher com um chapéu, de Oliver Sacks

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Foi com muita tristeza que ontem li em um post no facebook que o neurologista e cientista Oliver Sacks está com câncer em fase terminal. Por coincidência, estava lendo seu livro.

O Homem que confundiu sua mulher com um chapéu é um livro na qual o escritor irá descrever casos pelos quais tratou pacientes. O título do livro é sobre um caso na qual um professor universitário de música não conseguia mais reconhecer rostos (sua vista estava perfeita), mesmo sendo familiares. Contudo, quando cantarolava, seu cérebro voltava a funcionar perfeitamente. Incrível, não é?

Esse livro mostrou o quanto o cérebro humano é fascinante. Uma das histórias que chamou muito minha atenção, foi a da Rebeca. Era uma moça de 18 anos, com um retardo mental que a impedia de fazer coisas simples, como calçar um sapato. Não sabia ler nem escrever, mas Rebeca tinha uma atração pela natureza, por escutar história e uma exímia adoradora de poesia. Ela conseguia entender perfeitamente as metáforas poéticas a ponto de chorar. Sacks, na primeira vez que a viu no consultório, pensou que ela seria um caso perdido. Mas teve a sorte de vê-la ao ar livre, sentada em um banco, admirando a natureza. Ao ver o médico, ela esboçou um sorriso e disse “A natureza é linda. Há tanta vida!”. E a moça começou a falar em nascimento, primavera, estações, despertar… Sacks relacionou ao trecho do Eclesiastes “tudo tem seu tempo, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu. Tempo de nascer, tempo de morrer, tempo de plantar e tempo…”. Aquela menina considerada estúpida, era toda sensibilidade. Ao frequentar a sinagoga, Rebecca era toda fé. Muitos a respeitavam e viam nela a sensibilidade para as palavras divinas. Com a morte de sua avó, sua cuidadora, Rebecca sofreu e ao ser questionada disse “choro não por minha avó, pois sei que está bem, choro por mim, pois sinto um grande vazio. É como se eu tivesse um grande inverno dentro mim. Mas assim como há o inverno, há o verão. Em breve voltarei a florescer”.

Lindo, não? Justamente essa sensibilidade que Sacks no livro foi capaz de escrever que tanto me emocionou. Pessoas colocadas à margem da sociedade por suas deficiências mentais podem ser um potinho de surpresas.

P.S. Conheci Oliver Sacks através do filme Tempo de Despertar, que o Robin Williams representa Sacks. Filme muito bom, super emocionante! (Deu saudade, acho que vou assistir já já hahahah).

Tempo de Despertar

 


Forrest Gump, de Winston Groom

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O filme Forrest Gump, o contador de histórias; é uma película marcante na minha vida. Lembro que assisti pela primeira vez no ônibus Guanabara rumo à Fortaleza. Estava chovendo, as cortinas fechadas, a maioria dos passageiros dormindo e eu, menina réa, com os olhos grelados na televisão (foi o primeiro filme legendado que assisti). O mais incrível é que entendi boa parte do filme,  surpreendente pois eu era uma menina de 8 anos, que não sabia nada de movimento hippie, guerra contra o Vietnã…

Bom tempo depois – acho que dez anos – em uma virada de ano, eu o assisti novamente. Agora com conhecimentos prévios, pude desfrutar melhor da história e entender as entrelinhas.

Para minha grande surpresa, o livro Forrest Gump é bem diferente do filme. São duas histórias independentes, na qual o mesmo protagonista é Forrest (imagino dessa forma). Recentemente li Cândido, de Voltaire; e fiz um paralelo com O Grande Mentecapto, do Fernando Sabino. Os dois romances possuem estruturas, personagens e conflitos parecidos. O livro de Winston lembrou-me muito Cândido. Diferentemente dos primeiros citados, Forrest Gump é narrado em primeira pessoa. A personagem tem noção que inteligência não é seu forte. É muitas vezes ridicularizado por conta disso. Contudo, ao longo do romance, Forrest sempre é capaz de fazer algo bem feito que o garante ser admirado pelos demais. É assim quando se torna jogador de futebol americano, xadrezista, tenista, soldado, lutador, pescador de camarão… (mas Mariana, tudo que você citou tem no filme!). O filme mostra um Forrest bem sucedido e até rico, mas ao longo do livro veremos que ele não é tão bem sucedido assim. As amizades estão presentes com Bubba e Dan. Há também o orangotango Sue, que será um grande amigo. No livro Forrest arriscará até em em astronauta (essa parte é bem cômica!).

E a Janne? Ela, ao contrário do filme, é morena. Envolve-se com movimento hippie, é musicista, namoradeira… Mas o lance entre ela e Forrest começa bem cedo, e eles vão se encontrando ao longo do romance… A história entre os dois começa com uma transa casual, e Forrest vem a ser o amante que ela sempre procurou. É uma mulher que quer ter uma família, filhos, mas o Forrest sempre vacila e ela some das vistas dele. E bem, o final dos dois é beeeeeeem diferente.

Ao término da leitura, tentei colocar na balança qual das duas versões eu gosto mais, e concluí que as duas maneiras se complementam. É uma leitura super engraçada, ótima para sair de uma ressaca literária. Agora, com licença, pois quero mijar (quem ler o livro irá entender)! rsrsrsr

Inés da minha alma, de Isabel Allende

ines da minha alma

Isabel Allende é uma exímia contadora de histórias. Pude conhecê-la em Paula, uma autobiografia; e em Eva Luna. Gosto do seu estilo literário, e gosto mais ainda o fato dela invocar sempre o seu país – Chile -, em suas obras.

Narrado em primeira pessoa, Inés Soares no início do romance, é um mocinha espanhola magrela sem dotes financeiros nem de beleza. Em compensação é inteligente, boa costureira e cozinheira. Casa com um homem que a ensina tudo o que há de bom na cama, mas que a faz  sofrer por suas traições. O esposo parte para o Novo Mundo em busca de riqueza e, nessa tempo, Inês já não mais o ama – o que torna um alívio a ida do homem. Visto que o local onde vive não há nada para oferecê-la, vai em busca do marido na desculpa de ficar perto dele. Contudo, o que ela quer é novos ares.

Sua vida errante e cheia de aventuras começa ao por os pés no barco que a levará ao Peru. Ao chegar o Novo Mundo descobre que o marido morrera. Assim, envolve-se com Pedro de Valdívia, o homem que virar a ser o conquistador do território do futuro país Chile.

As guerras contra os nativos, com a Coroa, com os costumes sempre serão os motivos de Inés nunca viver em paz. Contudo, ela não quer paz. Ela é guerreira, tem o dom de curar e de encontrar águas subterrâneas. Ou seja, ela é uma peça fundamental para a implementação da nova comunidade de espanhóis no território chileno.

Ao meu ver o livro repete a mesma fórmula do livro Eva Luna, contudo o anterior considero superior. Por ser um romance histórico, pulei algumas partes (e que não fizeram falta no entendimento da história). Muitas passagens descrevem os nativos, considerados selvagens; descrevem a geografia do local, a gana dos espanhóis em achar ouro nesse novo território… E tornou enfadonha a leitura. No mais, Inês é uma mulher forte e inspiradora. Há presença de realismo fantástico, justamento no sincretismo cultural entre espanhóis e indígenas.

Inés foi uma pessoa real que através da autora ganhou características míticas. O que é uma sorte, visto que é imortalizada, enquanto tantos outros heróis tiveram como prêmio o anonimato.

Leia!

Senhora Dona do Baile, de Zélia Gattai

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Tenho uma grande admiração por Zélia desde que li Anarquistas, graças a Deus!. O anterior a este livro são memórias da escritora. Senhora dona do baile é um excelente livro para os interessados em como funcionava a URSS.

Anarquista, Zélia foi o par perfeito para Jorge Amado. Conheceram e logo se “amarraram” quando o escritor era deputado. Depois veio o exílio na França e Zélia, junto com o primeiro filho do casal – João Jorge – vai ao encontro do marido na Europa. É justamente nessa ida que começa os relatos da narradora.

A descrição do cotidiano dos brasileiros refugiados na França, as viagens aos países comunistas em prol da paz, as situações pitorescas que envolvem ela com Jorge ou com amigos, torna este livro, de 200 e tantas páginas, uma leitura agradável. Tem-se que dar o grande mérito à forma estilística que Zélia se apropria. Eu me percebi como uma neta escutando a avó contando histórias do passado. Por vezes eu recorria ao google para ver o rosto daqueles que Zélia citava.

Através das situações vivenciadas pela autora na Rússia, Ucrânia, Polônia, Checoslováquia, pude entender melhor o pós-guerra, e o exercício do comunismo em uma sociedade. É muito interessante como esses países funcionavam. As escolas era gratuitas; o Estado dava uma bolsa aos universitários poderem se sustentar sem um emprego, contanto que não reprovasse nenhuma disciplina; os aluguéis de imóveis eram taxados em porcentagem fixa a partir do salário do trabalhador; o consumo era intenso, pois o poder aquisitivo da população era alto. Muito interessante!