Política e Educação, de Paulo Freire

“A questão da linguagem, no fundo, uma questão de classe, é igualmente outro ponto em que pode emperrar a prática educativa progressista. Um educador progressista que não seja sensível à linguagem popular, que não busque intimidade com o uso de metáforas, das parábolas no meio popular, não pode comunicar-se com os educandos, perde a eficiência, é incompetente. Quando me refiro aqui à sintaxe, à estrutura de pensamento popular, à necessidade que tem o educador progressista de familiarizar-se com ela, não estou sugerindo que ele renuncie à sua, como também à sua prosódia para identificar-se com a popular. Seria falsa esta postura, populista e não progressiva. Não se trata de que o educador passe a dizer “a gente cheguemos”. Trata-se de respeito e da compreensão e por uma linguagem diferente.” (pág. 55)

“Como tentar explicar a miséria, a dor, a fome, a ignorância, a enfermidade crônica, dizendo, cinicamente, que o mundo é assim mesmo; que uns trabalham mais, com competência, por isso têm mais e que é preciso ser pacientes pois um dia as coisas mudam. Há uma imoralidade radical na dominação, na negação do ser humano, na violência sobre ele, que contagia qualquer prática restritiva de sua plenitude e que a torna imoral também.” (pág.92)

“O líder operário, audaz e empreendedor, aguerrido na luta de libertação, mas que trata sua companheira como objeto é tão incoerente quanto a líder feminista branca que menospreza a camponesa negra é tão incoerente quanto o intelectual progressista que, falando a operários, não se esforça para falar com eles.” (pág.95)

 FREIRE, Paulo. Política e educação: ensaios. São Paulo: Cortez, 2000.

 

 

 

 

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Carta a D., de André Gorz.

“É isto: a paixão amorosa é um modo de entrar em ressonância com o outro, corpo e alma, e somente com ele ou ela. Estamos aquém e além da filosofia.” (pág. 20)

“… admirávamos as acrobacias aéreas das andorinhas no pátio do nosso prédio, e você disse: “Quanta liberdade por tão pouca responsabilidade!.” (pág. 23)

“No final das contas, elas eram uma espécie de jogo, mas nesse jogo você sempre ganhava. Você não precisava das ciências cognitivas para saber que, sem intuições e afetos, não há inteligência, nem sentido.” (pág. 31)

“Estar completamente apaixonado pela primeira vez, ser amado de volta, era aparentemente banal demais, e privado demais, comum demais: não era uma matéria apropriada para me fazer atingir o universal. Um amor naufragado, impossível, isso sim, ao contrário, rende a nobre literatura. Fico à vontade na estética do fracasso e da aniquilação, não na do êxito e da afirmação. Preciso me erguer acima de mim e de você, à nossa custa, à sua custa, por meio de considerações que ultrapassam nossas pessoas singulares.” (pág. 37)

“Uma anotação de Kafka, em seu diário, pode resumir meu estado de espírito na época: “Meu amor por você não ama a si mesmo”. Eu não me amava por amar você.” (pág. 41)

“Nós tínhamos um mundo em comum, do qual percebíamos aspectos diferentes. Essas diferenças eram nossa riqueza.” (pág. 41)

“Não quero mais – segundo a fórmula de Georges Bataille – ‘deixar a existência para mais tarde’. Estou atento à sua presença como estive desde o início, e gostaria de fazê-la sentir isso. Você me deu toda a sua vida e tudo de si; e eu gostaria de poder lhe dar tudo de mim durante o tempo que resta.

Você acabou de fazer 82 anos. Continua bela, graciosa e desejável. Faz 58 anos que vivemos juntos, e eu amo você mais do que nunca. Recentemente, eu me apaixonei por você mais uma vez, e sinto em mim, de novo, um vazio devorador, que só o meu corpo estreitado contra o meu pode preencher.” (pág. 52)

Carta à D., André Gorz. Cosac Naif, 2014.

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O Desfile de Páscoa, de Richard Yates

“Nenhuma das irmãs Grimes teria uma vida feliz e, olhando em retrospecto, sempre pareceu que o problema começou com o divórcio dos pais.”

Assim começa o romance de Yates que fez eu me prostrar e chorar copiosamente. Sarah e Emily são irmãs bem diferentes em personalidades. A mais velha é morena e tem uma visão tradicional do papel da mulher. Emily é loira e ao longo da vida faz abdicações que a tornam ‘uma mulher moderna’. As meninas, depois do divórcio, passam a viver com mãe: uma mulher instável, que almeja uma vida de requinte, e por conta disso, vive se mudando em busca de uma casa que as faça aparentar para a sociedade um nível de vida sofisticado. Já o pai, é um homem que trabalha em um pequeno jornal como copidesque, frustrado pelo cargo e falha como pai de família.

As meninas vão crescendo ao longo do romance e acompanhamos suas escolhas sempre acompanhadas de renúncias. Sarah opta por casar cedo com um lindo rapaz, e viver em um ambiente campestre longe de oportunidades. Sua beleza aumenta a cada dia, e Emily vê nela a esposa feliz e realizada. Emmy ganha uma bolsa e vai para Universidade. Se relaciona com vários rapazes e nesse ponto é muito interessante acompanhar. Ela se envolve com vários tipos masculinos, e é meio cômico como os enlaces terminam. Suas escolhas acadêmicas e estilo de vida a afastam da família. Acho que não foram apenas situações externas que a fazem se afastar; Emmy com seu diploma superior passa a considerar sua irmã e mãe toscas. Exasperam-na as conversas em família sobre quando ela irá casar, ter filhos. Desse modo, cada uma seguiu um caminho diferente em busca da felicidade negada pela infância conturbada.

O romance é dividido em três partes, e transcorre ao longe de quarenta e dois anos. Emmy é a protagonistas e sabe-se o que acontece aos outros personagens a partir das informações que chegam a ela. A partir da segunda parte segredos começam a ser revelados e lemos o quanto Emmy foi poupada por ser a caçula da família.

A minha comoção surgiu a partir da personagem Sarah. Uma moça que cedo abdicou da vida própria, em busca de uma família sólida, por não ter tido isso na infância. Entrega-se totalmente ao marido, e constantemente ao longo do romance, a vemos querendo agradá-lo, seja com atitudes ou com palavras. Tornar-se mãe de três filhos que sugam mais e mais sua vitalidade.  O narrador com o passar dos anos, vai destituindo Sarah de suas qualidades físicas e descreve sua degradação e transformação em uma senhora tosca. Mas não é sua beleza se esvaindo que me comoveu, e sim os sonhos frustados que Sarah abafa. Ela vê a irmã como senhora de si, realizando trabalhos bacanas, viajando o mundo, tendo relacionamentos com homens interessantes. Por alguns momentos, Sarah quer dar um pouco de dinamicidade fora do âmbito familiar. Ela começa a escrever um livro sobre um herói dos EUA, depois se envolve com a rádio local… Mas tudo vai sendo deixado de lado, ora por que o marido não quer, ora por que ela se impõe essa penitência para continuar com a família em primeiro lugar. Há uma outra situação que é revelada que embasa mais a ideia de Sarah como submissa. O mais triste é ver essa mulher cativa de uma situação que ela nunca quis para si, mas que não consegue de desvelar por conta da sociedade e, ainda mais, por escolha própria.

Yates é magistral. Ele constrói os dramas femininos com uma realidade e sensibilidade que não as tornam neuróticas ou caricaturais. Eu por muitas vezes me enxerguei na Emmy; assim como muitas vezes vi na relação entre as irmãs, a minha com minha irmã. A evolução da beleza feminina em seu auge, quando Emmy desfruta de aventuras amorosas; e como sua vida vai degringolando quando a beleza vai se esvaindo. É sublime.

A leitura do livro pós episódio do estupro coletivo da adolescente no Rio de Janeiro, foi forte. A violência contra mulher é uma companheira presente na vida de todas nós. Violência que pode vir na forma física como psicológica. Violência que sempre aparecerá em qualquer escolha que nós fizermos: mãe de família ou mulher solteira. Violência que podemos escapar ilesa na juventude, por termos vitalidade e jogo de cintura; mas que pode surgir quando estamos velhas, sem amparo. Ser mulher é uma grande roleta russa. Sempre atentas e em estado de defesa.

 

 

Ana de Amsterdam, de Ana Cássia Rebelo

“Como se pode viver de costas voltadas para a família? Somos como peças de dominó. Caindo uma, sou sempre eu a cair, caímos todas.” (pág. 135)

“Aprendera, desde então, que o amor se pode medir, exprimir-se numericamente através de um sistema métrico com medidas próprias e rudimentares. O amor nunca é incondicional ou absoluto. Aumenta e diminui conforme calha. E termina. Adélia cedo se habituou à graduação do amor.” (pág.134)

“Descreio do aborto como forma de emancipação feminina e muitas vezes penso no destino desses embriões e fetos expulsos antes do tempo. Que lhes acontece? Devem ser metidos em grandes sacos de lixos pretos juntamente com rins, massas tumefactas, mucos, quistos, secreções, escarros, ossos, restos de peles. A possibilidade de esses pequenos monstros serem indistintamente incinerados em fornos em altas temperaturas impressiona-me. Faz-me muita confusão. Deixei-me ali estar, de pé, a olhar o coágulo na sanita, sem descarregar o autoclismo.” (pág. 167)

“Descíamos a rua da Madalena em direção à Baixa quando parou a olhar uma varanda de vasos floridos. Como se fosse a coisa mais natural do mundo, explicou que a morte não o assustava. O que o assustava era a morte depois da morte, o esquecimento dos outros, sofria com a possibilidade de ninguém recordar os seus gestos, o tom da sua voz, os principais traços do seu caráter, sobretudo, as suas opiniões. Contou ainda que o pai morrera novo, e a lembrança da mãe ajeitando as jarras da campa com flores frescas, beijando o nome incrustado na lápide, era a mais bela que guardava da infância.” (pág.170)

REBELO, Ana Cássia. Ana de Amsterdam. São Paulo: Biblioteca Azul, 2016.

 

 

Vermelho Amargo, de Bartolomeu Campos de Queirós

O amor, ao anunciar-se, assustou-me. Invadiu-me de repente, sem pedir licença ou por favor. E naquele tempo se usava pedir desculpas para ser feliz. A felicidade nos era interditada. Toda tristeza prenunciava uma felicidade que não chegava. Dormi e, ao despertar-me, já amava. Acordei-me em saudade. (pág. 25)

A mão do amor roçava meu corpo – mansa como a melancolia – afrouxando-me inteiro. Eu me entregava, sem reservas, com paixão e desmedo. Sumir dentro de meu amor, perder-me em sua respiração, encarnar-me em sua carne, ser o sonho de meu amor, era tudo o que mais pensava. Nem minha mãe, bem longe de mim, adivinharia meu paradeiro. Meu amor me acrescentava mais pecados, mas o padre, no segredo das confissões, perdoava-me. (pág. 28)

O amor sobressaltava em mim. Prosperava sem medo e veio sair pelos olhos, nariz, ouvidos, jamais pelas palavras. Investi, sem medida, no verba amar e me vi mudo. Minha boca não exalava palavras. Beijar era minha espuma, meu mar, meu batismo. Discordava do céu como a suavidade suprema. Quando as bocas se entretinham debaixo do assoalho de porão, o paraíso se anunciava. Pela boca o amor me devorava. Não projetava outro céu. O amor apaziguava minhas águas.  (pág. 53)

 

*Queirós, Bartolomeu Campos de. Vermelho Amargo. São Paulo: Cosac Naif, 2011.

Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios, de Marçal de Aquino

O trecho está grifado no livro. Nele, o professor Schianberg dá voz a Nietzsche – “Há sempre um pouco de loucura no amor, mas há sempre um pouco de razão na loucura” -, para depois contestá-lo, lembrando que na loucura dos amores contrariados não há espaço nenhum para a razão, apenas para a loucura.

O professor Schianberg escreveu: “A grande desgraça é que as lembranças não bastam para confortar os amantes, Nunca aplacam. Ao contrário: servem só para espiaçar as chagas daqueles que foram condenados à lepra do amor não correspondido”.

*Sem paginação, pois foi lido no kindle.

Citação

Situações & Interpretações literárias, de Pedro Paulo Montenegro

O romance é a forma literária representativa, por excelência, do mundo burguês e do homem como indivíduo, como entidade autônoma, como realidade singular perante o mundo e a sociedade. (pág. 50)

“Em todos os gêneros o que menos importa é a realidade. A literatura, toda ela, é sempre ficção. E examinando-se bem, não será ficção tudo que pensamos? A literatura não é certamente a única atividade humana que falseia e distorce a realidade. Também a ciência o faz. Só que a ciência o faz apesar do que se propõe e a literatura o faz de propósito.” (pág. 87)